Vale do Silício brasileiro

Florianópolis, Balneário Camboriú e Cocal do Sul mostram como conectar administração pública, empresas e cidadãos

Por Carlos Dias e Martha San Juan França

Florianópolis, ou Floripa, como ficou popularmente conhecida a capital catarinense, não é mais sinônimo somente de turismo e esporte. A cidade transformou-se na última década em um polo de tecnologia da informação (TI) e hoje abriga as maiores empresas nacionais e internacionais do setor.

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Não é à toa que o município foi o vencedor no grupo Indicadores Digitais no critério geral — isto é, em concorrência com cidades de todo o País — e também pelo critério de município de grande porte (com mais de 200 mil habitantes) no anuário As Melhores Cidades do Brasil. Florianópolis também foi indicada como líder nos quesitos acesso ao conhecimento e mobilidade digital, entre os municípios de grande porte (ver reportagens nas próximas páginas).

“Somos um Vale do Silício brasileiro, com 42 praias, dunas e lagoas”, diz o atual prefeito Cesar Sousa Junior (PSB). Em suas palavras: “Florianópolis é uma cidade que encontrou uma vocação econômica focada em TI nos últimos 20 anos”.

“Temos infraestrutura para atrair pessoas de todas as idades e várias opções para crianças, jovens e idosos”

Edson Renato Dias, prefeito de Balneário Camboriú

O secretário José Henrique Domingues Carneiro, de Ciência e Tecnologia, afirma que, hoje, 600 empresas dessa área estão congregadas na cidade, o que a torna a de maior tecnologia agregada proporcionalmente à sua população.  “Temos uma história relacionada a este desenvolvimento, um trabalho que começou na década de 1990 e se viabilizou a partir dos anos 2000”, conta.

O resultado desse esforço, diz o prefeito Cesar Junior, é que hoje o recolhimento de impostos com o setor de TI é maior que o de turismo.  O Imposto sobre Serviços (ISS) representa atualmente pouco mais de 25% da arrecadação do município ( 60 milhões a 70 milhões de reais por ano), enquanto o turismo representa 18% da arrecadação, em média, desse tributo. “TI hoje representa alta fonte de renda para a cidade, geração de dezenas de milhares de empregos para pessoas de alta renda e escolaridade”, atesta o prefeito.

O sistema de segurança de Balneário Camboriú está interligado. As viaturas da PM usam um aplicativo para tablet e smartphone para as ocorrências

O sistema de segurança de Balneário Camboriú está interligado. As viaturas da PM usam um aplicativo para tablet e smartphone para as ocorrências

Casarão-Sede

O trabalho de gestão pública que fez com que Florianópolis alcançasse tais resultados está ligado ao Projeto Sapiens, gestado há mais de duas décadas, que mais tarde resultaria no Sapiens Parque. O nome, peculiar, é justificado da seguinte forma pelos seus criadores: “A denominação Sapiens origina-se de sapientia (sabedoria) e de homo sapiens (ser humano pensante), permeando o conceito do Sapiens Parque ao colocar a sabedoria e o conhecimento a serviço do ser humano, criando oportunidades para que as pessoas experimentem e gerem novos conhecimentos. O Sapiens é composto por quatro grandes áreas que estruturam a sua concepção inovadora: Experientia, Scientia, Artis e Gens”.

Na prática, trata-se de um parque de inovação concebido para promover o desenvolvimento de segmentos econômicos que já são vocações de Florianópolis, como o turismo, a tecnologia, o meio ambiente e serviços especializados. O empreendimento foi idealizado pela Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (Certi) e tem apoio do Governo do Estado de Santa Catarina. O Sapiens está inserido em uma estratégia de desenvolvimento tecnológico regional que envolve outros projetos, como a incubadora Celta, o ParqTec Alfa, o laboratório-escola LABelectron e outras iniciativas do sistema local de inovação.

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A empresa de TI que quiser aportar em Florianópolis terá uma pacote de incentivos diferenciado. O tratamento tributário prevê menor alíquota de ISS que a de seus pares vizinhos, variando de acordo com o ramo de atividade, e isenção do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para a indústria de softwares. “Foi uma maneira de atrair ainda mais essas empresas e não cobrar o IPTU enquanto não iniciarem suas atividades”, afirma o prefeito. Na fila de indústrias prestes a colocar o pé na cidade está a fabricante de automóveis BMW, que pretende construir um centro de engenharia e pesquisa por lá.

Vigilância digital

Considerado um dos principais polos turísticos do sul do Brasil, Balneário Camboriú (SC) recebe visitantes de todas as regiões do País e também do exterior, além de abrigar uma população fixa de 113 mil moradores. A renda per capita é alta e boa parte dessa população cita a qualidade de vida como motivo de terem escolhido a cidade para viver. Quase 95% dos domicílios possuem telefone celular e 68% têm computador ou tablet, a grande maioria com acesso à internet (58%). Essa porcentagem está bem acima da média nacional de 74% de domicílios com celular e 21,3% com computador (15% com acesso à internet) e deu à cidade a primeira colocação no grupo Indicadores Digitais do anuário As Melhores Cidades do Brasil.

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O município investe de várias formas na acessibilidade digital da população. Hoje, todo o sistema de segurança — tanto da guarda municipal quanto de agentes de trânsito e da polícia militar — está interligado. Está prevista a monitoração de crimes ambientais na região da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa Brava, que inclui as praias agrestes da região. Um aplicativo para tablets e smartphones está sendo usado de forma pioneira na cidade pelas viaturas da PM. Ao atender uma ocorrência, os agentes registram as informações no aplicativo e imprimem o formulário preenchido na hora.

Os moradores já podem retirar suas guias do IPTU, certidões negativas e ter acesso ao sistema de geoprocessamento de seus imóveis via internet ou pelo celular. Hotéis, restaurantes, casas noturnas, comércio de modo geral, além de empreendimentos públicos e privados estão ligados por rede de internet com banda larga. A prefeitura instalou cinco antenas para telefonia e internet nas comunidades rurais a fim de facilitar o acesso para negociações com cartão de crédito e emissão de nota fiscal eletrônica, entre outros benefícios. O objetivo é fazer com que todo o sistema da prefeitura esteja integrado e troque informações por meio dessa rede.

Alunos da rede municipal de ensino e moradores em geral podem se matricular em cursos de informática nos níveis básico e avançado, oferecidos gratuitamente no Centro de Treinamento Comunitário das Nações (CTC). “Temos infraestrutura para atrair pessoas de todas as idades e várias opções para crianças, jovens e idosos”, afirma o prefeito Edson Renato Dias, o Piriquito (PMDB).

“Temos cerca de 20% de idosos na população, quase o dobro da média nacional”, afirma Piriquito. Para atender a esses moradores, a prefeitura criou cursos de informática em vários períodos com direito a certificado no final. “Esses cursos permitem o acesso a quem ainda não possui e o conhecimento para quem busca ocupar seu tempo, resultando no aumento da inclusão digital.”

Padrão de vida on-line

Em Santa Catarina, até as pequenas cidades se destacam em matéria de indicadores digitais. É o caso de Cocal do Sul, município de pouco mais de 15 mil habitantes. O estado abriga a capital e as cidades de médio e pequeno porte que mais têm residências que possuem computador e celulares e acesso à internet. Cocal do Sul se destaca no ranking de As Melhores Cidades do Brasil como a primeira colocada no grupo Indicadores Digitais, na categoria cidade de pequeno porte.

A colocação da cidade tem relação com o seu padrão de vida. Situada no sul catarinense, Cocal do Sul foi fundada por imigrantes italianos do Vêneto, que prosperaram em razão do desenvolvimento industrial nas áreas de cerâmica, confecções e metalomecânica graças à sua proximidade com Criciúma, a maior cidade da região; e ao estabelecimento no município da Cerâmica Eliane, que alavancou a economia do entorno.

“Todas as nossas crianças recebem ensino integral até os 5 anos de idade”

Ademir Magagnin, prefeito de Cocal do Sul

Hoje, os moradores do sul catarinense costumam dizer que “não há gente pobre” em Cocal. Segundo o prefeito Ademir Magagnin (PP), em primeiro mandato, o índice de desemprego, de fato, está abaixo da média nacional (0,83%). “A maior parte da população está estabelecida dentro do perímetro urbano e a infraestrutura é muito boa, com ruas pavimentadas, boa iluminação pública, sistema de água e coleta de esgotos que contribui para o desenvolvimento da região”, afirma.

Magagnin lembra que a inclusão digital tem reflexos positivos na atividade econômica e torna as pessoas mais capacitadas e com melhores condições de conseguir um bom emprego. Por isso, o município investe na educação. “Todas as nossas crianças recebem ensino integral até os 5 anos de idade”, diz.

A prefeitura também disponibiliza internet gratuita na praça central e no ginásio de esportes. Professores e técnicos têm acesso a um sistema digital para gestão de informações de ensino das unidades escolares e gestão do acervo das bibliotecas.

Em Cocal do Sul, o investimento em educação é prioridade e todas as crianças e adolescentes da rede municipal de ensino, a partir de 3 anos de idade, participam de aulas semanais de computação

Em Cocal do Sul, o investimento em educação é prioridade e todas as crianças e adolescentes da rede municipal de ensino, a partir de 3 anos de idade, participam de aulas semanais de computação

Segundo a secretária de Educação, Raquel Romagna Quarezemin, a iniciativa possibilita consultas via web sobre a vida escolar dos alunos e acompanhamento de seu desempenho. Ela conta que a maior parte da população de Cocal do Sul mora na zona urbana e tem acesso a celulares e computadores, mas o município também possui um laboratório de inclusão digital na área rural.

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O laboratório faz parte do programa Beija-Flor, implantado pela Secretaria de Estado da Agricultura e da Pesca, e dá acesso às tecnologias da informação. O objetivo é levar a essa população os serviços prestados pelo governo e dar oportunidade para o surgimento de empreendimentos e soluções tecnológicas voltados à comunidade rural e pesqueira do estado.

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