O esforço de empreender

Curitiba, Chapecó e Prudentópolis desenvolvem estratégias para melhorar a empregabilidade de seus moradores

Por Costábile Nicoletta, Gilmara Santos e Martha San Juan França

Curitiba destacou-se no subgrupo Mercado de Trabalho tanto entre as cidades de grande porte quanto na classificação geral dessa categoria no anuário As Melhores Cidades do Brasil. A capital paranaense sobressaiu nos itens relacionados ao nível de renda média geral e em determinados estratos, como percentual dos ocupados com ensino superior completo e acima de 18 anos, taxa bruta de frequência escolar, além do percentual de maiores de 25 anos com nível superior completo e menores níveis de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos de idade. A análise leva em conta a evolução da cidade nos últimos dez anos encerrados em 2014.

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Outro dado divulgado recentemente, no entanto, dá uma dimensão pragmática do que vem ocorrendo na cidade. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), no período compreendido entre junho de 2011 (início do Plano Brasil Sem Miséria) a maio de 2015, houve diminuição de 30,35% no total de famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família em Curitiba (30.444 famílias estavam inscritas ao final de maio de 2015 no programa no município).

Gustavo Fruet, prefeito de Curitiba (PDT), explica que essa redução se deve à migração de boa parte dessas pessoas para outros programas municipais, porque aumentaram a renda e melhoraram um pouco de vida. Neste ano, a administração municipal reservou cerca de R$ 700 milhões para iniciativas dessa natureza, como cursos de capacitação para mais de 25 mil pequenos e médios empreendedores.

Incluem-se nessas iniciativas financiamentos da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil a microempreendedores, como um casal do tradicional bairro de Santa Felicidade, cujo marido obteve uma licença para trabalhar com o carro na praça e a esposa ampliou a pequena lavanderia que mantinha em casa. Esse casal participava, até então, do Bolsa Família. Nas contas da prefeitura, compiladas pela Fundação de Ação Social (FAS) de Curitiba, 11.373 famílias puderam deixar o programa de complementação de renda, uma redução de 41.710 para 30.337 entre os anos 2011 e 2014.

Outro programa combina geração de emprego com oferta de frutas, legumes e verduras e preço até 40% menor. Chama-se Nossa Feira e permite que o usuário compre mais de 30 itens da estação, por R$ 1,79. Ele agrega 9 mil pequenos produtores, inclusive do interior do Paraná. Cada feira vende de 8 a 10 toneladas e só não é ampliada por falta estrutura de fornecimento. “A vantagem para o produtor é que ele não tem intermediário, e o consumidor compra direto, sem nenhuma incidência de imposto municipal”, diz Fruet.

Pequenas empresas do setor de alimentos ajudam a manter o mercado de trabalho aquecido em Chapecó

Pequenas empresas do setor de alimentos ajudam a manter o mercado de trabalho aquecido em Chapecó

Mas nem tudo são flores. A venda para o Bradesco das operações brasileiras do HSBC — cuja sede no País fica em Curitiba — preocupa a cidade. A instituição financeira de matriz britânica instalou-se no município em 1997, ao assumir os negócios do Bamerindus, então controlado pela família Andrade Vieira e sob intervenção do Banco Central.

O HSBC representa 8% da arrecadação do Imposto sobre Serviço (ISS) do município, o equivalente a R$ 84 milhões. Se o cálculo incluir as empresas que gravitam em torno do HSBC como fornecedoras de algum tipo de serviço, acrescem-se outros R$ 15 milhões de ISS. Ao todo, 7,5 mil empregos diretos estão na berlinda. Por mais qualificada que seja, dificilmente essa mão de obra será mantida nesse tamanho.

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“Por conta dos interesses da cidade envolvidos no negócio, estamos acompanhando de perto”, diz Fruet. “Tenho conversado com o presidente do Bradesco (Luiz Carlos Trabuco) e com o do HSBC (André Brandão). Ambos informam que processo de transição pode levar de seis meses até um ano. O objetivo de todos é dar transparência, serenidade e segurança ao mercado.” Mas o prefeito curitibano sabe que a tarefa não é nada fácil. Ele busca respaldo no Ministério da Fazenda e no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), para mostrar as consequências de uma concentração de mercado dessa dimensão e propor medidas que, ao menos, amenizem possíveis demissões.

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Novos campos

Considerada a capital nacional da agroindústria, Chapecó (SC) colhe os frutos do dólar alto, favorável a quem exporta e com reflexo direto no mercado de trabalho da região. Enquanto o País acumula fechamento de vagas formais de trabalho, Chapecó gerou 651 postos. “Estamos conseguindo manter índices positivos no nível de emprego por várias razões”, afirma o prefeito José Claudio Caramori (PSD). Entre esses fatores, ele destaca que o setor de alimentos, carro-chefe do mercado local, costuma ser o último a ser atingido pela crise. Isso sem contar que micro e pequenas empresas e empreendedores individuais têm uma lei diferenciada. Em 2015, a cidade recebeu o certificado pelo reconhecimento de Município Amigo dos Pequenos Negócios, entregue pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) às localidades que estão aplicando a Lei Federal n.º 123, de 14 de dezembro de 2006, que instituiu o Estatuto da Micro e Pequena Empresa.

Chapecó conta também com o alvará provisório para empresas que permite o início das operações do estabelecimento de atividades de baixo risco imediatamente após o registro empresarial, sem a necessidade de vistorias prévias e imediatas por parte de órgãos e entidades licenciadoras. Tem ainda a Sala do Empreendedor, que facilita a formalização dos negócios, e o Balcão do Emprego, que presta serviço gratuito ao trabalhador e ao empregador. E está em andamento o parque tecnológico, que conta com a lei de incentivo à inovação, tem cronograma de início previsto para 2016 e deverá dar grande estímulo também às empresas de tecnologia. “É um somatório de fatores que torna a cidade atraente para novos investimentos, sem contar que a população daqui tem vocação para o trabalho”, diz Caramori.
O prefeito lembra ainda que o Conselho Municipal de Turismo tem realizado eventos para atrair investidores para a cidade, que conta com o único aeroporto operado por município com capacidade para aviões de grande porte na região, responsável por transportar cerca de 30 mil pessoas mensalmente.

“Estamos conseguindo manter índices positivos de emprego”

José Claudio Caramori, prefeito de Chapecó (SC)

O agronegócio ainda é a matriz econômica chapecoense, que abriga empresas como Aurora e Sadia. Mas o município tem se estruturado para depender cada dia menos de apenas um setor. “A diversificação é importante porque, assim, a recessão demora mais para nos atingir. Sabemos que a crise vai chegar aqui, mas talvez o nosso município sinta menos do que outras regiões por ter ampliado a diversificação dos setores econômicos”, acredita Caramori. Nesse contexto, a área de tecnologia tem ganhado destaque, principalmente com o parque tecnológico. Também tem sido bastante requisitado o segmento de turismo de negócios, com grandes eventos e congressos. Isso sem falar que a cidade tem um time de futebol na primeira divisão do campeonato brasileiro, o que movimenta os restaurantes e, consequentemente, contribui para a geração de emprego e renda.

Chapecó conta ainda com 25 universidades instaladas, o que movimenta também os cursinhos e leva pais a investir no município. Vale destacar ainda a boa formação profissional dos moradores. “Para a mão de obra mais básica, como em frigoríficos, por exemplo, é necessário buscar trabalhadores na região, indígenas e até haitianos, porque praticamente não há esse profissional na cidade”, diz o prefeito.

Turismo e lazer

Localizado no sudeste do Paraná, o município de Prudentópolis se destaca por duas características únicas: a tradição ucraniana e as belas cachoeiras. Por conta disso, a cidade tem investido no desenvolvimento do turismo para ser o grande gerador de renda para a população. Hotéis, pousadas, agências, restaurantes e atrativos de lazer são os principais empregadores e um forte fator impulsionador de trabalho. “Em Prudentópolis, 90% das empresas são de micro e pequeno porte”, afirma Cristina Boiko, secretária de Indústria, Comércio, Desenvolvimento Econômico e Turismo. “O nosso objetivo é formalizar e capacitar essas empresas para que ofereçam bons produtos e serviços aos visitantes e a região se consolide como uma referência em turismo.”

Em Prudentópolis, o destaque é o turismo e o artesanato de raiz ucraniana

Em Prudentópolis, o destaque é o turismo e o artesanato de raiz ucraniana

Cerca de 70% da população do município de aproximadamente 50 mil habitantes é constituída de descendentes de imigrantes ucranianos. A maioria mantém muitos dos costumes e valores de seu local de origem, que se traduzem em atividades típicas, como grupos de dança folclórica, artesanato e uma profunda religiosidade. O município também investe na agricultura familiar, no comércio de embutidos e defumados seguindo o estilo ucraniano. São famosas as pêssankas, os ovos pintados que deram origem aos ovos de Páscoa ainda feitos por artesãos da cidade.

“Cerca de 90% das empresas de Prudentópolis são de micro e pequeno porte. O nosso objetivo é capacitá-las”

Cristina Boiko, secretária de Indústria, Comércio, Desenvolvimento Econômico e Turismo de Prudentópolis

Visando contribuir para a manutenção dos negócios e a geração de emprego e renda, foi implantado no município o Programa Cidade Empreendedora, uma iniciativa do Sebrae do Paraná que visa a melhoria do ambiente para pequenos empreendimentos. Os empresários de Prudentópolis recebem gratuitamente treinamentos próprios de suas áreas, como consultorias e oficinas de capacitação.

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O município é pioneiro na implantação da Redesim, um sistema integrado nacional que no Paraná tem o nome de Empresa Fácil e simplifica os procedimentos de abertura, fechamento e alteração de empresas nas juntas comerciais, reduzindo custo e burocracia e utilizando apenas a internet. Na mesma linha, Prudentópolis aderiu ao Programa Bom Negócio Paraná, em parceria com o estado, que dá capacitação, consultoria e acompanhamento na gestão de empresas. Uma atenção especial foi dada pelo município para a capacitação dos artesãos, por meio do projeto Prudentópolis Tem!, que incentiva os participantes a comparecer a feiras fora da cidade, onde podem comercializar seus produtos e divulgar a cultura local.

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